Distanciamento virtual viral.


Oportunistas de plantão, delinquentes sem carteira nem cara, e criminosos de verdade que assaltam de modo fácil tanto os mais crédulos e impulsivos com um click ao alcance, quanto aos metidos a sabidos em computação, como este que voz escreve, a primeira razão para o distanciamento virtual viral.


Pense um pouco antes de interagir com sugestões de replicar, compartilhar, gifs, frases solidárias, críticas a quem você já critica, isso mesmo, há quem utilize a sua ira para ganhar dinheiro e a explicação começa por metadados, passa pela área de algoritmos computacionais e é só o começo.


Em segundo, olhar com cautela para quem ganha com o sofrimento alheio mostrando-se de corpo inteiro, com marca, nome e morada, do outro lado do balcão dos vendilhões do templo.


Estes últimos, desde os pequenos ganhadores aos mega investidores, são parte de uma massa crítica amorfa, difícil de divisar, encontrá-los, pois infiltrados há muito tempo entre nós. Há exceções, é claro, mas nem essas sabe-se onde estão. Complicado? É exatamente isso que estamos experimentando, quer queira quer não queira, uma experiência pandêmica e pandemônica.


Uma diabólica, a pandemia propriamente dita, que ninguém pode explicar com 100% de exatidão, as suas causas, os seus efeitos (i.e. em quem, como, quando, o quê, quanto custará) e muito menos qualquer defesa totalmente segura, já que a cura total é uma incógnita sine die. Quer aqueles que ignoram a potencialidade da pandemia, quer aqueles que se agarram na fé, ou no espiritismo, na medicina hegemônica ou integral holística, ou ainda, na matemática. Portanto é diabólica por isso. Ainda não sabemos onde está o QG do inimigo, não sabemos nem se o inimigo mora ao lado ou se um dia poderá chegar invisível. Ronda no ar que ele pode aparecer a qualquer hora, de qualquer direção.


A outra, pandemônica, uma guerra insana porque, afinal de contas, mesmo incluindo os mais endemoniados, somos todos humanos, bem longe de sermos um pangolim que se enrosca de medo. Nós, ao contrário do animal, quando temos medo erramos, mostramos o nosso lado mais frágil, não raramente o nosso pior lado. Na direção contrária, de quem provoca o medo, é uma doença crônica da humanidade, parece se desenvolver um temperamento sádico, da manutenção do medo no amedrontado, o prazer de ganhar não basta, tem que o alongar… Fomos dotados de pensamento, podemos raciocinar, inventar, sistematizar, fazer malabarismos cognitivos, a lista é longa, e aprendemos desde cedo que uma mordida na maçã é coisa de enlouquecer qualquer um, e aí inventamos a imagem, a sensualidade, um repertório alegórico fabuloso de sedução mútua... Mesmo assim, nos apavoramos com facilidade, e pior, no meio do medo xingamos uns aos outros afogados na nossa impotência de decidir nossas vidas, porque delegamos num certo ponto da história para outros decidirem…


“O homem está para o macaco, assim como os vermes estão para o homem”. Ele, o macaco, estranha esses seres eretos, andando com os membros superiores pendurados aparentemente sem função, e mutilando-se, raspando os pelos, pintando a cara…”; assim como nós estranhamos os vermes porque, bem, são horríveis mesmo. Minha tradução livre e comentada de uma citação de Desmond Morris, O Macaco Nu, que vem a calhar ao meu apelo: pedir que a Terra faça uma quarentena de um dia sem acesso à grande rede de computadores (WWW), que não utilize a Internet (conexão eletrônica via cabo ou satélite), não assista TV nem escute rádio, se desconecte, um dia apenas, não vai doer.


Vamos evitar a aglomeração digital? Talvez plantar um temperinho na janela, sorrir simplesmente com ternura, quando discordar, em vez de revidar com brutalidade…


Fiz esse distanciamento digital e olhei para dentro de mim mesmo. Não consegui distanciar-me um dia inteiro, tentei algumas horas mas consegui apenas quinze minutos para escrever esta crônica… Depois olhei no espelho da minha intimidade, e respondi em pensamento a seguinte pergunta: - fiz algo para que esta situação viral não fosse real e o que farei sistematicamente daqui para frente, quando voltar à vida normal? Seja lá o que seja isso.



©1997/2020 by Luis Peazê

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